Cição Pau no Cat

Comecei a correr em 2003, como um hobby – até o passatempo mudar a minha vida e fazer parte da minha rotina. De lá pra cá, vivi o mundo de corridas de rua intensamente, completando algumas maratonas e inúmeras outras distâncias, na montanha foram mais de 20 ultras. Sem dúvida,  que cruzar a linha de chegada é maravilhoso, mas o processo para chegar até lá é o grande barato, montanhas, paisagens, lugares que eu nunca imaginaria correr. O ano de 2009 marcou a minha estreia em provas de montanha. O El Cruce de Los Andes prova 100 quilômetros, que tem como propósito correr pela Patagonia entre Chile e Argentina foi onde tudo começou.  Pra mim foi um evento sob medida, pois naquela época da minha vida, estava mesmo em busca de uma renovação pessoal e espiritual e foi nas montanhas que encontrei. Passei por maus bocados naquela prova, pois ali estava fazendo a minha migração das provas de rua para as provas de montanha. O frio, o desconforto, a minha falta de experiencia, fizeram daquela prova, um teste único para mim se de fato eu seguiria fazendo provas daquele tipo ou simplesmente eu voltaria pra as provas rua.

De lá pra cá, se passaram 10 anos e com inúmeras provas feitas ao redor do globo, posso me considerar um “old is scool” do nosso trail. Uma vez, lendo uma revista de esporte, me deparei com uma matéria intitulada assim: “100 coisas que você precisa realizar no esporte antes de morrer” e uma delas dizia o seguinte: não importa qual posição, mas lute para subir num pódio uma vez na vida, confesso que tive a honra de conseguir alguns e até ter me sagrado campeão numa das provas mais lindas que fiz na vida que pra mim, foi uma experiencia sublime. Os 100km da Mongólia Sunrise to Sunset (MS2S), aconteceu a 15.744km do Brasil, disputada ao lado do Lago Hovsgol, em meio a natureza quase virgem, confesso que nunca passou pela minha cabeça chegar em primeiro, ainda mais correndo com caras de mais de 40 países, mas quando nos últimos quilômetros eu percebi que não poderia ser mais alcançado, me debulhei em lagrimas e a música tema da vitória, vinha a todo momento na minha cabeça, me senti o Ayrton Senna numa manhã de domingo sabe?.

A minha conexão com as montanhas será eterna, o ano era 2012 e pouco antes de ir pros 80km do Desafio das Serras, perdi o meu pai e levei as suas cinzas junto comigo para essa prova. Passado o primeiro dia de prova e já durante a noite da primeira etapa, fui ao topo da montanha fiz uma prece e joguei as cinzas do meu velho no alto da montanha da Serra da Bocaina. A partir daquele momento, todas as vezes que estou correndo eu me pego conversando com o meu pai, por vezes sorrio e algumas vezes caio no choro.

Me considero um cara estudioso e para o tipo de provas que mais prefiro que são as de longa distância o estudo do regulamento, traço o planejamento correto e exerço a humildade de conversar com os mais experientes, são essências para tomar boas decisões e procurar errar o menos possível durante qualquer prova.

Carrego comigo alguns mantras que me ajudam a ficar vivo e sempre preciso os uso e os meus preferidos são: “vamos lá que hoje é dia de pãozinho quente”, “vamos lá, um passo na frente do outro, que a linha de chegada está mais próxima”, para a dor eu tenho outra que é ótima: “A dor que estou sentindo, não é uma dor é apenas um desconforto momentâneo e já vai passar”. Veja não tem nada de especial, mas produz um efeito analgésico em mim que é incrível e a frase clássica de minha mãe: “engole o choro e vai em frente”, e por último tenho mais duas que adoro “a trilha coloca cada um no seu devido lugar” e “é preciso suar grosso se você quer muito algo, suar grosso”.

Se posso deixar uma mensagem para os amigos leitores da trailrunning, jamais terceirize os seus sonhos, ele é seu, portanto, tem o seu nome, o seu cpf, lute, sue grosso que você vai conseguir!

 

Um beijo Cicao

Sobre Valmir Dias Lana Júnior

Diretor Revista Trail Running. Atleta de Ultra trail e chefe da delegação brasileira de Skyrunning.