Patrícia Honda

Tema: “Grandes nomes e conquistas femininas”
Reporteres:  Sinara
Entrevistado(a): Patrícia Honda, atleta  multicampeã de diversas ultramaratonas entre elas a mais temida de todas, os 100km da Ultrafiord. De espírito aventureiro, Patti Honda como é conhecida no meio esportivo, adora testar seus limites físicos e mentais.

Perspectiva:

Com garra e perseverança elas conseguiram conquistar o seu espaço no esporte, provando para todos que as mulheres também conseguem ser boas em qualquer tipo de modalidade seja de força ou agilidade assim como os homens, mesmo sendo consideradas frágeis, elas são determinadas a mostrar que não é necessário este tipo de preconceito e que o esporte vale para qualquer sexo.  O caminho  Cada mulher que já subiu um pódio, levou consigo muito mais do que a medalha. A conquista de uma é resultado da luta de muitas outras no passado e, ao mesmo tempo, é a semente para que tantas mais venham no futuro. Nada disso veio de mão beijada. Por isso, pedimos licença para trazer aqui um pedaço da sua história.

1- Após quanto tempo na corrida tomou a decisão de encarar uma ultramaratona?

A corrida surgiu na minha vida na época da faculdade, quando estudava Direito na Universidade de São Paulo. Fiquei empolgada quando já no primeiro teste de 800m, na pista do Ibirapuera, o treinador da Atlética falou que eu levava jeito para a coisa. Mas a rotina era desgastante, pois eu frequentava o período diurno e os treinos começavam após as aulas do período noturno, estendendo-se até depois da meia-noite. Assim, infelizmente, desisti pouco tempo depois. Nos anos seguintes, intercalei algumas corridas de rua de 5 km com períodos sem correr. Em 2014, resolvi treinar, ainda sem planilha, duas vezes por semana com um grupo da academia. Um dos colegas de treino era corredor de montanha e estava se preparando para a La Misión, na Argentina, uma prova de 160 km. Na época, eu mal acreditava que algo assim era possível. Logo após conquistar os meus primeiros 21 km, fui convidada para participar de um treino preparatório dele de 100 km entre Atibaia e São Francisco Xavier. Topei, mas com a ideia de repetir os 21 km e depois seguir no carro de apoio. No entanto, excedendo todas as minhas expectativas, acabei correndo a minha primeira maratona, as primeiras 50 milhas e inacreditavelmente completei os 100 km. Fiquei feliz da vida ao descobrir uma habilidade inata para exercícios de resistência e, na corrida de montanha, um novo mundo de possibilidades e sonhos. Eu mal podia imaginar o quanto essa nova paixão mudaria a minha vida.

2- Sabemos que sua primeira ultramaratona foi o desafio do El Cruce.  Comente sobre a experiência de pegar os 90 k em 3 dias logo de início.

Fiz a minha inscrição no El Cruce, sem nunca ter participado de uma corrida de montanha, uma loucura. No entanto, já era uma pessoa extremamente ativa nessa época. Frequentava aulas de spinning, yoga, dança, musculação e corrida, sem planejamento algum e sem cobranças, pelo puro prazer de estar em movimento. Buscando me preparar para essa estreia, escolhi duas provas da K21 Series, da Salomon, como treino e acabei pegando o 1º lugar na minha categoria dos 21km da etapa de Campos do Jordão – minha estreia, e 3º na minha categoria na Serra do Japi, resultados super empolgantes para uma iniciante.

Meses depois, embarquei para a Argentina com um misto de apreensão e empolgação. Mesmo com a falta de experiência e sem nunca ter seguido uma planilha na vida, a vontade de correr descobrindo pelo caminho os encantos da Patagônia argentina e chilena foi uma baita motivação para completar todo o percurso. Claro que acabei aprendendo muitas coisas na marra: era frequentadora assídua da tenda de primeiros socorros com as minhas bolhas, não sabia como me livrar de cãibras – pois nunca tinha sentido isso  – até um corredor argentino me oferecer cápsulas de sal e descobri também que nunca devemos usar equipamentos sem antes testá-los nos treinos. Apesar de tudo isso, foi uma experiência mágica. Nunca vou me esquecer dos banhos gelados de rio, da vibe maravilhosa do acampamento, dos típicos churrascos argentinos e das pessoas incríveis que conheci, sendo que com algumas mantenho uma forte amizade até hoje. Aliás, foi por influência delas que acabei entrando para uma assessoria especializada em corridas de montanha e trail running em julho de 2016. Fun fact: na retirada do kit, em San Martín de los Andes, um integrante da equipe francesa veio pedir para que eu tirasse uma foto de todo o time com os seus respectivos números de peito e entre eles estava o François D’Haene, um dos melhores atletas do mundo. Na época, eu não tinha a mínima ideia de quem ele era.

3 Como foi sua trajetória e preparação para os desafiadores 100k da Ultra Fiorde da qual você foi campeã ?

Pelo fato de ser uma prova extremamente técnica em uma região inóspita e selvagem do extremo sul da Patagônia Chilena, famosa pelas condições climáticas instáveis – muitas vezes desfavoráveis, procurei realizar treinos desafiadores com uma mochila pesada e em terrenos variados, principalmente técnicos. Nos três meses que antecederam a prova, fiz a Travessia Petrópolis-Teresópolis, na Serra dos Órgãos, a Travessia da Ponta da Joatinga, no litoral norte do Rio de Janeiro e a Travessia Marins-Itaguaré, na Serra da Mantiqueira. O volume de treinos chegou a 140 km por semana com bastante altimetria. Além disso, realizei um treino noturno de 10 horas em Atibaia, para simular o cansaço de correr madrugada adentro e poder testar os equipamentos que seriam usados na prova, como headlamp e bastões. Ser a campeã geral em uma prova épica como essa foi um baita estímulo para continuar treinando duro e, com isso, acabei fechando a temporada de 2018 com importantes vitórias no currículo. A partir de então, a corrida ganhou uma nova dimensão na minha vida.

4- Qual seu estilo de prova preferido? E por quê? (prova mais rolada e rápida, técnica, progressão lenta.. )

Sempre gostei das provas mais técnicas, talvez pelo fato de muitas delas contarem com as paisagens mais bonitas e desafiadoras, como é o caso da Patagônia chilena e argentina. Além disso, curto muito treinar e competir na Serra Fina, em Ilhabela e em outros lugares que seguem essa linha mais técnica.

5- Já passou por alguma grande frustração em uma competição? Quais os pensamentos que você mais escuta durante a maior parte do seu caminho: são pensamentos leves ou competitivos?

Sim, justamente na prova mais importante do meu currículo, a Abutres Trail World Championships.

Não foi nada fácil conquistar uma vaga na seleção brasileira de trail running, por meio do Circuito Seletiva Mundial Trail 2019. Para isso, tive de competir em três ultramaratonas de peso em um curto espaço de tempo no segundo semestre de 2018, o que exigiu de mim muito treino e uma boa dose de determinação para avançar de objetivo em objetivo. Por isso, após tanta dedicação, foi frustrante ter que lidar com uma síndrome do trato-iliotibial no joelho esquerdo e uma instabilidade funcional do tornozelo, nos meses anteriores à competição, o que afetou os meus treinos, o meu psicológico e por fim, o desempenho na prova.

Fora este episódio, costumo ser muito tranquila durante as provas. Nem sempre foi assim, mas com a minha bagagem de competições, aprendi que devo confiar em todo o trabalho realizado até ali. Por isso, muitos que já correram comigo ficaram surpresos com a leveza que procuro conduzir uma prova. Acredito que as ultramaratonas já são suficientemente desgastantes do ponto de vista físico e que o meu corpo não precisa de mais pressão ainda na parte psicológica, por isso, procuro curtir as pessoas e os lugares por onde passo.

6- Sabemos que geralmente você não utiliza relógio nas provas, isso te deixa psicologicamente mais confiante e confortável?

Por anos, treinei e competi sem relógio por não sentir necessidade e me sentia bem confortável com isso. Durante a semana, como treinava na esteira, acabava não precisando mesmo. Já nos treinos de fim de semana, sempre ia para as trilhas com o Luis Robles, parceiro de treinos e perrengues, que me avisava quando o treino por tempo ou por distância tinha acabado (risos). Confesso que não tinha muita curiosidade sobre o nosso ritmo ou distância percorrida. Adorei essa fase em que corria livre, leve e solta, imersa na natureza ou em algum desafio. Foi um ótimo exercício de autoconhecimento, em que aprendi a sentir o meu corpo, a administrar o esforço físico e com isso acabei adquirindo maior autonomia, por não depender da tecnologia. Às vezes pegava um relógio emprestado só para controlar a alimentação durante alguma prova. Acabei optando por comprar um Garmin semanas antes do Mundial e hoje em dia uso pela praticidade de enviar automaticamente os dados dos treinos realizados para o meu treinador. Para o espanto de muitos corredores (em relação a algo que sempre me pareceu normal), participei de muitas provas longas sem o auxílio de um relógio. Foram provas como o El Cruce 90km, a Ultra Fiord 100 km, a Ultra Machu Picchu Trail 100km, a La Misión Brasil 80 km, dentre outras.

7- Fale sobre os seus próximos desafios em mente ou que sonha realizar.

No momento não tenho nenhum desafio programado por causa da pandemia e estou curtindo o descanso de competições. Quanto aos sonhos, tenho vontade me tornar uma atleta de montanha o mais completa possível e para isso, gostaria de incluir escaladas no meu currículo e participar de expedições de alta montanha. Sempre flertei com essas atividades e mais do que aumentar as distâncias ou as dificuldades físicas, quero aprender coisas novas, reinventar-me e assim redefinir os meus limites.

8– Qual a sua grande motivação para treinar e como concilia seu trabalho e treino, principalmente em épocas de competição. O que te move?

Conciliar trabalho e treinos de alto desempenho requer muita disciplina. Moro em Atibaia e trabalho em São Paulo como Oficial de Justiça, cumprindo os meus treinos após a jornada de trabalho. Nem sempre é fácil, muitas vezes acabava fechando a academia (por enquanto, por causa da pandemia, deixei de frequentar), mas sempre com um sentimento maravilhoso de dever cumprido.

A minha maior motivação e o que traz mais sentido aos meus treinos é que posso aproveitar todo esse meu preparo físico e mental também fora das competições, ao pedalar, correr, fazer trekkings, enfim, explorar a vida outdoor nas minhas andanças pelo mundo afora. Um exemplo disso se deu logo após eu competir na Ultra Fiord 100 km, quando aproveitei para dar uma esticada até o Parque Nacional Torres del Paine, destino icônico de trekkers do mundo inteiro, para fazer o clássico Circuito W de 71 km em 3 dias. Ao chegar em cada refúgio, trocava a minha cargueira gigante e pesada com a qual percorria as trilhas por uma mochila de ataque para conhecer os arredores do parque correndo. Uma recompensa e tanto depois de tantos treinos.

9 – Qual foi sua maior dificuldade dentro de uma competição? (altitude, temperatura, cansaço físico ou mental)

Correr a Ultra Machupicchu Trail 100km 2017 sob o efeito da altitude sem ter tido tempo hábil para uma boa aclimatação. A dificuldade para respirar na subida do Salkantay, nos Andes peruanos, era enorme em virtude do ar rarefeito, tanto que ao atingirmos os 4800m, havia uma equipe medindo o nível de oxigênio no sangue dos atletas. Outra situação desafiadora se deu na Ultra Fiord quando, ao cair da noite, fui surpreendida por uma nevasca durante a ascensão do Cerro Prat. A descida foi particularmente difícil, em virtude do nível técnico do terreno, com suas muitas pedras soltas e ainda por conta do frio intenso e da falta de visibilidade das marcações cobertas pela neve. Acabei sofrendo várias quedas por tentar sair dali o mais rápido possível.

No entanto, encaro esses desafios típicos de percursos mais exigentes como oportunidades de aprendizado e crescimento pessoal. Ao buscar ficar confortável com o desconforto gerado por essas situações e exercitar a minha autoconfiança e resiliência, acabo me tornando uma pessoa mais calma e flexível frente aos inevitáveis percalços da vida.

10- Das grandes experiências que você já viveu em provas e ao longo da sua jornada, o que você deixaria de conselho para as mulheres que sonham em se tornar ultramaratonistas?

Olhando para trás, vejo como foi essencial me apaixonar pelo processo e procurar tornar essa trajetória mais leve e divertida. Fazer algo prazeroso ajuda a desviar a atenção das dificuldades, por isso estou sempre em busca de novas aventuras. Além disso, acho importante construir uma boa rede de suporte nessa empreitada, cercando-se de bons profissionais e ótimos parceiros de treinos. Por fim, mas não menos importante: ouse sonhar sem limites. Todas somos capazes de feitos incríveis e por isso, deixo uma frase inspiradora de T. S. Eliot de que gosto muito: “Somente quem se arrisca a ir longe fica sabendo até onde pode chegar.” Só posso dizer que vale cada gota de suor.