Treinamento cruzado. Quais os benefícios para os atletas de trail?

É muito comum vermos alguns dos melhores corredores de trail running do mundo praticando o ciclismo de estrada e o mountain bike paralelamente ao seu treinamento de corrida. Outros deles, principalmente os europeus, utilizam o ski e até outras atividades extras para complementar seu treinamento.

A essa prática, damos o nome de treinamento cruzado. É basicamente qualquer atividade esportiva que realizamos paralelamente à nossa modalidade principal e que tem, como finalidade, precisamente, ajudar-nos a melhorar o nosso rendimento.

Além das vantagens físicas, os treinos cruzados também podem ajudar na preparação psicológica dos atletas, que saem um pouco da rotina, variando as atividades.

Uma das principais referências em treinamento esportivo do Brasil, principalmente no trail running, o professor Guilherme de Agostini, que é Mestre em Fisiologia, Doutor em Bioquímica e foi técnico da seleção brasileira nos mundiais de trail running de 2017 e 2019, recentemente falou, em seu instagram, sobre a importância do treinamento cruzado, especificamente sobre o ciclismo e principalmente o Mountain Bike, para os atletas de trail.

O professor explica que cada indivíduo tem apenas um coração, portanto, qualquer atividade aeróbias extra, fora da modalidade principal do atleta, como natação, ciclismo, remo, elas treinam o coração. “Apesar de não serem atividades semelhantes, elas aumentam o retorno venoso, mantêm o coração trabalhando mais por um tempo x e, consequentemente, elas geram benefícios, que são treinar o coração e aumentar o débito cardíaco máximo via aumento da cavidade do ventrículo esquerdo, volume diastólico final e, consequentemente, volume sistólico, ou seja, maior aporte e entrega de oxigênio para o músculo”, declara.

Guilherme destaca que se trata de treino concorrente, em que a pessoa vai treinar ciclismo, porém, vai continuar treinando corrida. Com isso, o corredor vai aumentar as horas de treino durante a semana, ou seja, o volume de treinamento, sem ser na corrida. Ele também destaca como ponto importante a questão do desgaste muscular, uma vez que correr provoca, no momento em que o pé está em contato com o solo, na fase de propulsão, uma “flexão plantar do tornozelo, sóleos e gastrocnêmio; extensão dos joelhos, principalmente pelos vastos lateral e medial; e uma extensão do quadril, principalmente pelos glúteos” e a musculatura treinada é a mesma no ciclismo, apesar das devidas diferenças no ciclo do movimento.

Um terceiro ponto de grande importância que o professor destaca é a “velocidade com que o terreno passa por nós”. Isso porque, no trail running, um aspecto crucial no desempenho do atleta é a dupla tarefa, que é também um dos grandes limitadores, principalmente no downhill. “A dupla tarefa nada mais é que uma tarefa física (correr) somada a uma cognitiva (pensar onde eu vou colocar o pé ao correr). Num downhill de MTB nós temos que ter uma velocidade de escolha extremamente rápida e, como descemos muito mais rápido no MTB do que no trail, o chão passa mais rápido e, logicamente, vamos melhorando essa qualidade de diminuir a dupla tarefa”.

Para finalizar, Guilherme fala sobre mais uma vantagem. “Todo mundo sabe que, quanto mais corremos, mais batemos o pé no chão e, com isso, mais geramos impacto. Conforme for esse impacto, gera lesão, que, junto com o fator doença, é o fator principal que diminui a performanece desejada pelo atleta. O ciclismo não gera impacto, então, podemos aumentar a quantidade de horas treinadas por semana, sem aumentar a carga ósseo-tendinosa, conseguindo melhorar o preparo físico global do atleta com risco baixo de lesão”, declara.

Além de complementar o treinamento com aumento de volume e baixo impacto, o ciclismo também é uma excelente opção para treinos regenerativos.

Um dos grandes talentos do trail mundial, especialmente nas provas de Skyrunning e quilômetros verticais, o suíço Remi Bonnet, é um exemplo dos adeptos ao ciclismo. Veja o que ele declarou em suas redes sociais sobre os treinos paralelos de ciclismo.

“A bike tem um lugar importante na minha preparação para a temporada de trail running. Permite-me trabalhar a minha resistência e também ganhar força, o que me ajuda muito para correr subidas em terrenos muito íngremes. E, claro, também me permite descobrir lugares que não necessariamente vejo quando corro.”

O atleta, inclusive, faz treinamento de bike indoor, quando não consegue pedalar na estrada. Veja nas fotos abaixo:

Outro grande exemplo é o multicampeão Pau Capell, que também utiliza o ciclismo para complementar seus treinos:

No Brasil, também temos inúmeros exemplos. Entre elas, o grande campeão Ernani Souza, que veio do Mountain Bike, já disputou mundiais de MTB, Duatlhon e Trail representando o Brasil e tem no ciclismo um grande complemento ao seu treinamento:

Foto: arquivo pessoal

Confira o vídeo completo do professor Guilherme pelo link: https://www.instagram.com/tv/CJPZLMkD0Pv/

Sobre Wanderson Nascimento

Jornalista e atleta de trail running, compete pela Go On Outdoor e atua como Diretor de Jornalismo da Revista Trail Running