Boi Preto – Minha história

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Por: Valmir Lana Jr.

Era 23:40h da noite de uma sexta-feira quando desci do carro na escuridão para percorrer os longos e solitários 84 quilômetros da Boi Preto (@boipretoultra).

Sem eu saber a Gabi (@gabspaschoalini), minha esposa, filmou o momento, eu já estava pilhado e procurava um local para “guardar” minha garrafa de 1,5L de água numa moita pois passaria neste mesmo local por volta de 03:00h da madruga com 28km nas pernas...

Noite sem lua, trilha dos escravos escorregava muito, como de costume, muito cuidado pra não machucar nesta descida difícil de 3,5k com -400m de desnível.

Durante o percurso de 10k em estrada pude correr tranquilo, até aparecer uns 10 cachorros pra testar o sangue frio do cidadão aqui...

Enfim cheguei ao bar do Riva e segui pra trilha que levaria a primeira cachoeira e ao topo da montanha da Serra da Moeda, o trecho conhecido como “fim do mundo”...

No meio da subida a neblina veio como um lençol em conjunto com a luz da lanterna, não conseguia ver onde pisava, mas tbm não queria andar, mais tropicava que corria, mas fui, finalizei os 28km em 3h 15’, um pouco acima do pretendido, mas tava feliz de ter chegado na minha garrafa que tinha escondido na moita!

Agora era hora de pegar mais 10km do trecho conhecido como “Topo do Mundo”, a neblina havia ficado pra trás, mas a escuridão de uma noite sem lua não me dava visão além do que a lanterna iluminava, era somente olho na trilha e segue o jogo...

Quem conhece este trecho sabe como tem subida, curtas, mas bem íngremes e técnicas... mas pra mim foi muito corrivel, me lembro de andar umas duas vezes ou três, no máximo... desta vez fiz o trecho um pouco mais rápido que o planejado...

Cheguei no final do Topo do Mundo feliz, já tinha passado de 5h de corrida e 38km... agora viria uma longa e penosa descida de uns 10km e mais 5k com subidas e descidas até chegar ao pé da trilha que da nome ao desafio...

Eu tentava decifrar uma passagem e acabei caindo dentro de uma vala que não dava pra ver... fiquei assustado pois ainda estava escuro e não sabia a profundidade ou o que teria la dentro... bati meu lado esquerdo bem forte e sai rápido dali e nem olhei o Wikiloc, sai num vara mato pois sabia que a trilha estava praquele lado... e realmente encontrei!

Dei aquele confere na perna esquerda e vi que foram so escoriações leves e segui em ritmo bom, a descida é forte, em asfalto, o dia amanhecia, podia ver o sol iluminando a parte debaixo de algumas nuvens, o ar fresco ainda arrepiava a pele e sentia que o dia, dali pra frente, seria quente!

Não tinha jeito, aquela descida faz vc travar todos os passos e vai moendo sua musculatura... não dava pra soltar as pernas pois pagaria caro la na frente mas travar tbm não era um bom negócio...

No fim da descida aproveitei para comer mais, me hidratar bem e jogar o lixo fora... passei em Piedade do Paraopeba com 6h e pouco de corrida e me permiti andar um pouco, comi uns doces com calma, bebi água tranquilo e quando fui voltar a correr senti uma dor na minha virilha, em seguida doeu “meio que a cabeça do meu fêmur esquerdo”; voltei a andar, apalpei e não doeu... pensei que teria sido a pancada no capote na vala... voltei a correr pra ver se parava, mas não parou, não estava insuportável, mas estava lá!

Quando cheguei no km 53, entrada da trilha da Boi Preto, pensei: “agora que vai ficar difícil”... - lembro que tinha feito este mesmo trecho no sábado anterior, são 31km com 1900+ muito travado - me questionei se valia a pena seguir e decidi abortar e ir direto pra Casa Branca (+ 6km).

Em 3 semanas eu estaria na Patagônia Run para correr as 100 milhas e arriscar uma lesão tão próximo seria mais que imprudência, seria burrice mesmo!

Segui feliz pra Casa Branca sabendo que tinha feito um BAITA treino, foram 58km com 2400+ em 7h40’.

Na chegada uma boa Coca gelada, um torrone e aquela msg pra patroa, “pode me buscar já”...

No fim das contas, sabadão ainda tomei café da manhã com minha mulher e comi muita porcaria o resto do fds!

Minha história com a Boi Preto ta 2x1 pra ele... mas tá longe do apito final... em breve teremos mais!

Como é bom ter algo como a Boi Preto do lado de casa pra te por medo, te derrubar e, às vezes, você conseguir finalizar! Muito aprendizado envolvido!

Sobre Valmir Dias Lana Júnior

Diretor Revista Trail Running. Atleta de Ultra trail e chefe da delegação brasileira de Skyrunning.

11 comentários

  1. Juan Augusto em 30 de março de 2021 às 18:41

    Boa Valmir! Obrigado pelo relato. Só atiça cada vez mais o momento de trilhar estes caminhos. Muito respeito e amor pela montanha!

  2. @sergiogarciarun em 30 de março de 2021 às 21:16

    Valmir, você me convidou pra este Boi Preto.
    Insisto na pergunta,: Você não gosta de mim, quer me matar?

    • Valmir Dias Lana Júnior em 31 de março de 2021 às 12:15

      Quero ver sua carinha de “Puta merda, Valmir… você me odeia mesmo, mas eu te amo”! kkkkk

  3. Edvaldo Maciel em 30 de março de 2021 às 21:29

    Já estava com vontade agora ao ler sua história com a Boi preto me diz que já posso marcar data que o nogocio vai ser brabo uhuuuuuu……

  4. Eduardo Teixeira em 30 de março de 2021 às 22:18

    Legal demais Valmir! Conheço o trajeto por ter feito partes separadas dele. Em breve terei a oportunidade e preparo para fazer inteira.
    Parabéns por levar o trail mundo afora!

  5. RODRIGO SILVA DO NASCIMENTO em 20 de maio de 2021 às 14:30

    Boa tarde sou do Rio de Janeiro e estou completamente apaixonado pela Boi Preto nao vejo a hora de marcar pra poder conhecer essa prova linda demais e parabéns pela sua história de vida na corrida e por nos proporcionar momentos de puros sonhos …

  6. Robson Almeida em 19 de junho de 2021 às 20:22

    Quero me preparar para fazer esse trecho em 2022. Já tenho assessoria e defini esta meta para os próximos 12 meses. Saindo do sedentarismo, ex-fumante: o preparo vai demandar muita disciplina. Mas meta boa é aquela que motiva, gera uma conexão emocional. Como mineiro vivendo em São Paulo, para mim essas paisagens do trajeto são repletas de boas recordações. Algo forte o bastante pra me manter nos trilhos quando vier a preguiça, nos dias ruins emocionalmente ou mesmo quando for só uma proposta diferente de alocação do tempo, que terei que recusar pra me manter focado no treino. Obrigado por compartilhar aqui sua experiência, é uma inspiração!

    • Valmir Dias Lana Júnior em 21 de junho de 2021 às 17:13

      Muito legal, cara, se prepare, venha aqui se for possível, treinar nas trilhas vai te dar mais confiança!
      Tente fazer treinos e provas menores, aprenda sobre como seu corpo reage aos estímulos, aprenda muito sobre equipamentos também, busque se informar e chegue preparado para fazer o seu melhor.

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