Ultra Trail Caparaó

POR: VALMIR LANA


Viva o EXTRAORDINÁRIO, esta é a frase que o evento Ultra Trail Caparaó utiliza como guia.

Estivemos presentes no evento para cobrir de dentro, ou seja, correndo a prova maior. Eu, Valmir Lana, estava inscrito nos 100km, sempre gosto de viver tudo que há pra viver, mas a distância foi cancelada então passei para os 50km. O evento tomou todas providências para que todos fossem notificados a tempo da mudança e foi sucesso.

O primeiro ponto que eu analiso é sempre a comunicação do evento para nortear o atleta. Deixo claro que o atleta é o primeiro responsável por seu sucesso no evento e este deve fornecer todos os dados técnicos e necessários para que isso possa acontecer. Neste quesito, acredito que se saíram muito bem, claro que há o que melhorar, mas ninguém ficou sem informação, o GPX foi disponibilizado no dia anterior, mas não vejo problemas nisso, já que o percurso, altimetria e tipo de terreno já havia sido disponibilizado com bastante antecedência.

Como não sou adepto de “super kits”, achei o kit da prova ótimo, não foi um gigante como vi que foi o do ano passado, mas isso não é um ponto de importância para mim, então, se o Kit tiver numero de peito e chip tá ótimo. O da prova tinha uma camisa de tecido de algodão com uma arte lindíssima de uma moradora local, a Iside Perdigão, número de peito, chip, um energético, copo sanfonado e um cupom de desconto para um curso de trail da Bita Lapertosa.

O kit tava ótimo, a arena foi bem planejada, o pórtico inovador, algo com jogo de luzes, bambus e cordas coloridas, achei fantástico fugir do tradicional, aliás, a arena toda é sustentável, tendas, palco, gradil, tudo bem inovador, mas vamos falar mais de arena no fim. O congresso técnico creio que pode ser melhorado, não foi ruim, ainda mais com a presença e condução de Manuel Lago, treinador e atleta renomado no mundo trail, ele ficou responsável por todo percurso e logística “que também trataremos oportunamente”, mas acredito que além da informação falada, poderiam ter colocado imagem e mostrar no mapa altimétrico tudo que os atletas passariam, onde teriam os pontos de abastecimentos, os pontos mais técnicos, em suma, fornecer mais alternativas para entendimento do que nos aguardava.

A prova larga de uma pousada parceira do evento em Alto Caparaó, sobe cerca de 8km até chegar na tronqueira, local que começa mesmo a trilha pra valer, a largada às 3h45min, a princípio, não me agradou, mas pegar o nascer do sol a quase 3000m de altitude me fez agradecer profundamente por aquele momento (valeu, organização, mantenham este horário de largada). Este trecho até o ponto mais alto da ida, é bem técnico, bem técnico mesmo, alguns trechos você consegue desenvolver bem a corrida, mas outros é mão no joelho e seja feliz.

Foto: Fernando Biagioni

A descida do Pico para o lado Capixaba tinha até gente pra ajudar em alguns pontos de tão alto que era o nível, mas as belezas do alto do Brasil me fizeram parar e esquecer a corrida para, simplesmente, admirar e agradecer pela vida e saúde. Foi algo singular, uma visão tão ampla, tão linda, tão reveladora que nos faz sentir o privilégio que temos em estar vivos.

Foram quase 5km de descida técnica e mais 8km de estrada e bloquetes e as descidas eram muito inclinadas, difícil segurar, então aproveita e solta as pernas, porque, na volta, você terá que subir tudo de novo e aí que a coisa fica feia, já com 27km nas pernas e sabendo o que te aguarda é algo que faz você flertar com o pensamento de abandono, mas você segue, forte, determinado e vai.

Subida vencida e enfim, Pico da Bandeira, o cume mais alto (acessível) do Brasil (2.891,32m) e o terceiro no geral, perdendo somente para o Pico da Neblina e 31 de março que ficam na floresta amazônica. Agora a descida é para curtir, terreno típico, bem próximo ao que estou acostumado em BH, então soltei e fui assim até o km 50 quando há o último trecho da prova, são 6km desse trecho, no início uma descida em pasto em ingrime e com 50km nas pernas não é fácil soltar, depois um zigue-zague no cafezal subindo uns 200m para enfim cruzar a linha de chegada com 56km e 3.955m de desnível positivo acumulado.

Foto: Fernando Biagioni

Tenho que falar e elogiar a marcação da prova, as fitas foram feitas uma a uma com refletivos e na cor ROSA, nunca vi algo tão efetivo em termos de marcação quanto este desenvolvido pelo diretor, Klaus Pettersen. A equipe do Manuel Lago fez um brilhante trabalho, não houve nem uma dúvida sequer durante todo o percurso, tudo como deve ser, meus parabéns.

Os pontos de abastecimentos foram suficientes, poderia ter um mais, mas os 3 na ida e os mesmos na volta garantiram que não faltasse nada do básico. Poderia colocar mais um ponto de Coca Cola e mais um com sanduba, ficaria bem “Gourmet” e eu não acharia nada ruim.

Arena da prova como antecipei, ficou muito boa, com opções de hamburguer, churrasco, açaí, cerveja, refrigerante, cadeiras e mesas pra galera, show no final pra todos e muita festa.

Tenho que pontuar duas coisas que servem de análise da equipe:

1- ouvi muita gente reclamando que não teve premiação de categoria, eu entendo a importância disso, não sou defensor de categoria de idade, mas podem repensar isso, de todo o caso, bastava os atletas lerem o regulamento e veriam que não há premiação de categoria de idade, então não tem do que reclamar.

2- a parte final, descida no pasto e subida em zigue-zague no cafezal, no meu ver é desnecessário e digo o porque: a prova é essencialmente de montanha, com 50km o atleta está 100% feliz com a prova, afinal ele está prestes a cruzar a linha de chegada e poderá descansar, se alimentar, às vezes tomar aquela merecida cervejinha e aqueles 6km adicionais jogam este sentimento e expectativa fora, eu senti exatamente assim, a prova daria 53km com mais de 3.800m D+, alcançando o topo da 3ª mais alta montanha do Brasil 2 vezes, não há argumento que me convença que aquilo é uma boa ideia. Sei que a organização quer oportunizar uma vivencia dentro do cafezal, mas creio que haveria outras formas disso acontecer, pois uma vivencia acrescida no trail tem que ser uma vivencia boa e não um martírio.

Resumo: A Ultra Trail Caparaó é uma baita corrida em montanha, essencialmente de montanha, lindíssima, muito bem organizada, com alguns pontos que podem ser avaliados e explorados melhor, mas são pontos pequenos, eles acertaram na maioria e mais importantes coisas que se pode avaliar num percurso.

Vale a pena? CLARO QUE VALE!!! Um evento imperdível, eu diria, tem que estar no calendário de todos atletas que amam uma boa competição, tenham certeza que, se Deus me permitir, estarei lá outras vezes para sentir a mesma sensação de PRAZER EM ESTAR VIVO que senti durante esta prova.

Parabéns aos organizadores, aos atletas, staffs, exército e a Deus por me permitir viver o EXTRAORDINÁRIO!

Foto: Fernando Biagioni

Sobre Valmir Dias Lana Júnior

Diretor Revista Trail Running. Atleta de Ultra trail.