VK Catas Altas

Uma prova desafiadora com adversidades e percurso extremamente técnico
Por Sinara Piassi


Horizontes Skyrace, o primeiro VK do Brasil teve a sua estreia no último domingo, 25 de outubro de 2020, no aconchegante município de Catas Altas aos pés de sua imponente montanha de beleza única: Serra do Caraça, localizada a sudeste de Minas Gerais.

A prova

Seguindo protocolos de segurança, com briefing técnico antecedendo a prova, a competição contou com aproximadamente 30 atletas previamente selecionados e já experientes. Com largadas individuais a competição teve uma distância estipulada em 4,4km com 1039m de desnível positivo, onde os atletas tinham como ponto final o cume do Pico Horizontes, com altitude de 1768m.
A chuva que deu início a semana da prova não deu trégua e a largada teve início as 06:30 am, com os atletas em escala curricular de velocidade mais baixa largando primeiro como previsto na regra da modalidade . A subida sinuosa e íngreme até o pico contou com travessias em córregos e cachoeiras com grande volume e força das águas da chuva, pequenos trechos de singletrack em meio a floresta úmida, lamaçal, samambaias cortantes e terreno extremamente escorregadio. Com vento forte e  temperaturas baixas, os últimos 700m até o cume contavam com cordas de segurança, água e staff. Todos os atletas atingiram o cume com segurança finalizando a prova.

O VK (Vertical Kilometer®)
Quilómetro Vertical (Vertical Kilometer®) é uma disciplina da modalidade de Skyrunning, que consiste na ascensão de 1000 metros com uma inclinação significativa e que não ultrapassa os 5 km de extensão linear. O Quilômetro Vertical está dividido em três níveis de altitude (variação de ± 200 metros), a saber, dos 0- 1000 m, 1000-2000 e 2000 a 3000 metros, com 5% de tolerância.

A organização
A Horizontes Skyrace contou com uma grande união de colaboradores e voluntários que foram peças fundamentais para realização desse marco no esporte outdoor: EcoAventuras Esportes, Marcos Lamego, Valmir Lana e a Revista Trail Running. Com apoio da Assetur Caraça e patrocinadores ( Pousada Terra Mineira, Mel Santa Bárbara, Pousada Jardim dos Elefantes).

RESULTADO FINAL

Feminino
Linabel Iramaia 1h19min
Sinara Piassi 1h24min
Cal Nogueira 1h35min
Masculino
Pedro Esteves 54min
Alexandre Santiago 56min
Luis Nei Resende 58min


COM A PALAVRA OS CAMPEÕES
Pedro Esteves
"A primeira edição da Horizontes Skyrace reuniu elementos de grande dificuldade, exigindo dos atletas pré-selecionados extremo esforço e atenção, orientados pela organização impecável. Foi uma honra dividir esse marco do Trail Run nacional com todos os homens e mulheres que também fizeram parte desse desafio.
Ser campeão da primeira prova de quilômetro vertical do Brasil é motivo de muito orgulho, ainda é difícil saber qual o tamanho dessa conquista, mas certamente o tempo vai dizer, já que essa modalidade vem ganhando força pelo mundo afora. Fizemos história!".

Linabel Iramaia

“Após sete meses com apenas o volume de treinos o 1º VK Horizontes Sky Race foi como um presente. Recebido com grande alegria por poder correr em um dia nublado e chuvoso, subindo mais de 1000m de altitude com muitos obstáculos, o tornando mais desafiador. Chegar no Pico dos Horizontes foi uma mega explosão dos melhores sentimentos que o Skyrunning poderia me oferecer, foi recheado de muita adrenalina. “

Vídeo por: Raphael Lopes


Opnião dos idealizadores

Marcos Lamego

“Há 20 anos residindo em Catas Altas, aos pés do Pico dos Horizontes, fui abençoado por poder admirar esta majestosa Serra do Caraça todos os dias, o que me fez indagar: Por que várias crianças que nascem nas praias viram surfistas e poucas que nascem nas montanhas viram montanhistas? Portanto para incentivar uma ocupação e utilização da montanha de forma ordenada e com respeito iniciamos através da Terra Mineira Eventos a valorização dos esportes de Montanha como vetor deste trabalho. Em 2019 fomos os pioneiros a preparar uma prova de Trail Run para a cidade, a 1ª Corrida de Montanha de Catas Altas - EcoAventuras. Dando continuidade neste programa, iniciamos o ano de 2020 realizando a 2ª edição do evento e fomos além com a produção do 1º Km Vertical do Brasil, o Horizontes Skyrace.
Confirmando a vocação natural da charmosa Catas Altas, o pequeno município Mineiro está também sendo carinhosamente chamado de Capital Brasileira dos Esportes de Montanha, consolidando como o destino no Brasil para quem busca qualidade de vida através da prática de atividades esportivas como a Escalada, Montanhismo, Canionismo, Trekking, Trail Run, Mountain Bike, Highline, dentre outros.”

Valmir Lana

“ Descobrir o VK em Catas Altas foi um grande momento para o cenário do trail nacional, principalmente para o cenário Skyrunning, que é uma modalidade muito desenvolvida na Europa.   Catas Altas apresenta montanhas magníficas e imponentes, que é a Serra do Caraça. Tinhamos dificuldade em encontrar uma montanha que tivesse grande nível de dificuldade e alto ganho de elevação em tão pouca quilometragem. Eu como representante do Skyrunning no Brasil, dei a ideia ao Marcos Lamego para qe pudesse organizar o KV. Não ajudei na organização da prova em si mas contribuí com todo o tipo de informação sobre a modalidade desconhecida. Nas divulgações pela Revista Trail Running, consegui atingir grandes atletas do trail no Brasil e leva-los para competição. Foi um evento teste e muito complicado devido as grandes chuvas nos três dias que antecederam a prova. Devido ao clima instável, os staffs não conseguiram atingir o cume e prova foi marcada até o km 4,4 com o ganho menor de elevação, porém homologada como o primeiro VK do Brasil. A realização de uma prova com esse nível de dificuldade, fomenta, e trás uma novidade dentro do cenário trail, sendo como uma nova opção que incentivará mais atletas a participarem. Espero que em breve surjam mais Kms Verticais  Brasil afora. Sonho um dia quem sabe criar um circuito de Km Vertical no Brasil. Buscar, inovar e criar novos atletas de novas modalidades e fazer o trail crescer, passa por essas ações. Demos um passo muito importante e quero parabenizar o organizador Marcos Lamego, por ter tido peito de realizar algo que ele nunca tinha feito antes.   Parabenizo também os staffs que pernoitaram na montanha e os atletas que foram muito corajosos de encarar o grau de dificuldade dessa prova.”

Lucas Papi

Luca Papi não termina os 1000km, mas faz história fechando seu desafio em 850km e mais de 40.000 metros de ganho positivo.

Devido ao calor extremo e uma lesão que se agravou no quadril, o corredor italiano decidiu não continuar o desafio #grancanaria1000km. O objetivo inicial era unir as quatro edições da Transgrancanaria 360°.

Foram 13 dias, 275horas, 850km e 82.000 calorias. O italiano começou sua aventura completando a edição de 2020 em 72 horas, num percurso extremamente difícil de 262km. Em seguida, no dia 06 de setembro, partiu para o percurso de 2018 (269km e 12.000d+). Chegaria então a edição de 2019 (264km e 13.265d+), que devido ao calor e a lesão o obrigou a caminhar grande parte do percurso, finalizando em 102 horas e 10 minutos.

Nessa época, a Europa é castigada por altas temperaturas que ultrapassam os 40 graus ao dia e 30 graus à noite. O corredor italiano ainda teve que dormir ao ar livre no meio de estradas, escassez de água em muitos pontos, inúmeras trocas de tênis e ausência de sono. No entanto, a alegria que Luca Papi carrega consigo e a ajuda da população que lhe ofereceu suporte em diversos trechos, foi fundamental em seu desafio.

Sem duvidas, depois de treze dias e 850km, este corredor, campeão em três das quatro edições da Transgrancanaria 360°, deixa seu legado e escreve uma nova história no mundo Ultra Trail. Luca Papi foi reconhecido pelo Conselheiro de Esportes do Cabildo de Gran Canária, Sr. Francisco Castellano, que entregou uma placa após a linha de chegada.

Patrícia Honda

Tema: “Grandes nomes e conquistas femininas”
Reporteres:  Sinara
Entrevistado(a): Patrícia Honda, atleta  multicampeã de diversas ultramaratonas entre elas a mais temida de todas, os 100km da Ultrafiord. De espírito aventureiro, Patti Honda como é conhecida no meio esportivo, adora testar seus limites físicos e mentais.

Perspectiva:

Com garra e perseverança elas conseguiram conquistar o seu espaço no esporte, provando para todos que as mulheres também conseguem ser boas em qualquer tipo de modalidade seja de força ou agilidade assim como os homens, mesmo sendo consideradas frágeis, elas são determinadas a mostrar que não é necessário este tipo de preconceito e que o esporte vale para qualquer sexo.  O caminho  Cada mulher que já subiu um pódio, levou consigo muito mais do que a medalha. A conquista de uma é resultado da luta de muitas outras no passado e, ao mesmo tempo, é a semente para que tantas mais venham no futuro. Nada disso veio de mão beijada. Por isso, pedimos licença para trazer aqui um pedaço da sua história.

1- Após quanto tempo na corrida tomou a decisão de encarar uma ultramaratona?

A corrida surgiu na minha vida na época da faculdade, quando estudava Direito na Universidade de São Paulo. Fiquei empolgada quando já no primeiro teste de 800m, na pista do Ibirapuera, o treinador da Atlética falou que eu levava jeito para a coisa. Mas a rotina era desgastante, pois eu frequentava o período diurno e os treinos começavam após as aulas do período noturno, estendendo-se até depois da meia-noite. Assim, infelizmente, desisti pouco tempo depois. Nos anos seguintes, intercalei algumas corridas de rua de 5 km com períodos sem correr. Em 2014, resolvi treinar, ainda sem planilha, duas vezes por semana com um grupo da academia. Um dos colegas de treino era corredor de montanha e estava se preparando para a La Misión, na Argentina, uma prova de 160 km. Na época, eu mal acreditava que algo assim era possível. Logo após conquistar os meus primeiros 21 km, fui convidada para participar de um treino preparatório dele de 100 km entre Atibaia e São Francisco Xavier. Topei, mas com a ideia de repetir os 21 km e depois seguir no carro de apoio. No entanto, excedendo todas as minhas expectativas, acabei correndo a minha primeira maratona, as primeiras 50 milhas e inacreditavelmente completei os 100 km. Fiquei feliz da vida ao descobrir uma habilidade inata para exercícios de resistência e, na corrida de montanha, um novo mundo de possibilidades e sonhos. Eu mal podia imaginar o quanto essa nova paixão mudaria a minha vida.

2- Sabemos que sua primeira ultramaratona foi o desafio do El Cruce.  Comente sobre a experiência de pegar os 90 k em 3 dias logo de início.

Fiz a minha inscrição no El Cruce, sem nunca ter participado de uma corrida de montanha, uma loucura. No entanto, já era uma pessoa extremamente ativa nessa época. Frequentava aulas de spinning, yoga, dança, musculação e corrida, sem planejamento algum e sem cobranças, pelo puro prazer de estar em movimento. Buscando me preparar para essa estreia, escolhi duas provas da K21 Series, da Salomon, como treino e acabei pegando o 1º lugar na minha categoria dos 21km da etapa de Campos do Jordão – minha estreia, e 3º na minha categoria na Serra do Japi, resultados super empolgantes para uma iniciante.

Meses depois, embarquei para a Argentina com um misto de apreensão e empolgação. Mesmo com a falta de experiência e sem nunca ter seguido uma planilha na vida, a vontade de correr descobrindo pelo caminho os encantos da Patagônia argentina e chilena foi uma baita motivação para completar todo o percurso. Claro que acabei aprendendo muitas coisas na marra: era frequentadora assídua da tenda de primeiros socorros com as minhas bolhas, não sabia como me livrar de cãibras – pois nunca tinha sentido isso  – até um corredor argentino me oferecer cápsulas de sal e descobri também que nunca devemos usar equipamentos sem antes testá-los nos treinos. Apesar de tudo isso, foi uma experiência mágica. Nunca vou me esquecer dos banhos gelados de rio, da vibe maravilhosa do acampamento, dos típicos churrascos argentinos e das pessoas incríveis que conheci, sendo que com algumas mantenho uma forte amizade até hoje. Aliás, foi por influência delas que acabei entrando para uma assessoria especializada em corridas de montanha e trail running em julho de 2016. Fun fact: na retirada do kit, em San Martín de los Andes, um integrante da equipe francesa veio pedir para que eu tirasse uma foto de todo o time com os seus respectivos números de peito e entre eles estava o François D’Haene, um dos melhores atletas do mundo. Na época, eu não tinha a mínima ideia de quem ele era.

3 Como foi sua trajetória e preparação para os desafiadores 100k da Ultra Fiorde da qual você foi campeã ?

Pelo fato de ser uma prova extremamente técnica em uma região inóspita e selvagem do extremo sul da Patagônia Chilena, famosa pelas condições climáticas instáveis – muitas vezes desfavoráveis, procurei realizar treinos desafiadores com uma mochila pesada e em terrenos variados, principalmente técnicos. Nos três meses que antecederam a prova, fiz a Travessia Petrópolis-Teresópolis, na Serra dos Órgãos, a Travessia da Ponta da Joatinga, no litoral norte do Rio de Janeiro e a Travessia Marins-Itaguaré, na Serra da Mantiqueira. O volume de treinos chegou a 140 km por semana com bastante altimetria. Além disso, realizei um treino noturno de 10 horas em Atibaia, para simular o cansaço de correr madrugada adentro e poder testar os equipamentos que seriam usados na prova, como headlamp e bastões. Ser a campeã geral em uma prova épica como essa foi um baita estímulo para continuar treinando duro e, com isso, acabei fechando a temporada de 2018 com importantes vitórias no currículo. A partir de então, a corrida ganhou uma nova dimensão na minha vida.

4- Qual seu estilo de prova preferido? E por quê? (prova mais rolada e rápida, técnica, progressão lenta.. )

Sempre gostei das provas mais técnicas, talvez pelo fato de muitas delas contarem com as paisagens mais bonitas e desafiadoras, como é o caso da Patagônia chilena e argentina. Além disso, curto muito treinar e competir na Serra Fina, em Ilhabela e em outros lugares que seguem essa linha mais técnica.

5- Já passou por alguma grande frustração em uma competição? Quais os pensamentos que você mais escuta durante a maior parte do seu caminho: são pensamentos leves ou competitivos?

Sim, justamente na prova mais importante do meu currículo, a Abutres Trail World Championships.

Não foi nada fácil conquistar uma vaga na seleção brasileira de trail running, por meio do Circuito Seletiva Mundial Trail 2019. Para isso, tive de competir em três ultramaratonas de peso em um curto espaço de tempo no segundo semestre de 2018, o que exigiu de mim muito treino e uma boa dose de determinação para avançar de objetivo em objetivo. Por isso, após tanta dedicação, foi frustrante ter que lidar com uma síndrome do trato-iliotibial no joelho esquerdo e uma instabilidade funcional do tornozelo, nos meses anteriores à competição, o que afetou os meus treinos, o meu psicológico e por fim, o desempenho na prova.

Fora este episódio, costumo ser muito tranquila durante as provas. Nem sempre foi assim, mas com a minha bagagem de competições, aprendi que devo confiar em todo o trabalho realizado até ali. Por isso, muitos que já correram comigo ficaram surpresos com a leveza que procuro conduzir uma prova. Acredito que as ultramaratonas já são suficientemente desgastantes do ponto de vista físico e que o meu corpo não precisa de mais pressão ainda na parte psicológica, por isso, procuro curtir as pessoas e os lugares por onde passo.

6- Sabemos que geralmente você não utiliza relógio nas provas, isso te deixa psicologicamente mais confiante e confortável?

Por anos, treinei e competi sem relógio por não sentir necessidade e me sentia bem confortável com isso. Durante a semana, como treinava na esteira, acabava não precisando mesmo. Já nos treinos de fim de semana, sempre ia para as trilhas com o Luis Robles, parceiro de treinos e perrengues, que me avisava quando o treino por tempo ou por distância tinha acabado (risos). Confesso que não tinha muita curiosidade sobre o nosso ritmo ou distância percorrida. Adorei essa fase em que corria livre, leve e solta, imersa na natureza ou em algum desafio. Foi um ótimo exercício de autoconhecimento, em que aprendi a sentir o meu corpo, a administrar o esforço físico e com isso acabei adquirindo maior autonomia, por não depender da tecnologia. Às vezes pegava um relógio emprestado só para controlar a alimentação durante alguma prova. Acabei optando por comprar um Garmin semanas antes do Mundial e hoje em dia uso pela praticidade de enviar automaticamente os dados dos treinos realizados para o meu treinador. Para o espanto de muitos corredores (em relação a algo que sempre me pareceu normal), participei de muitas provas longas sem o auxílio de um relógio. Foram provas como o El Cruce 90km, a Ultra Fiord 100 km, a Ultra Machu Picchu Trail 100km, a La Misión Brasil 80 km, dentre outras.

7- Fale sobre os seus próximos desafios em mente ou que sonha realizar.

No momento não tenho nenhum desafio programado por causa da pandemia e estou curtindo o descanso de competições. Quanto aos sonhos, tenho vontade me tornar uma atleta de montanha o mais completa possível e para isso, gostaria de incluir escaladas no meu currículo e participar de expedições de alta montanha. Sempre flertei com essas atividades e mais do que aumentar as distâncias ou as dificuldades físicas, quero aprender coisas novas, reinventar-me e assim redefinir os meus limites.

8– Qual a sua grande motivação para treinar e como concilia seu trabalho e treino, principalmente em épocas de competição. O que te move?

Conciliar trabalho e treinos de alto desempenho requer muita disciplina. Moro em Atibaia e trabalho em São Paulo como Oficial de Justiça, cumprindo os meus treinos após a jornada de trabalho. Nem sempre é fácil, muitas vezes acabava fechando a academia (por enquanto, por causa da pandemia, deixei de frequentar), mas sempre com um sentimento maravilhoso de dever cumprido.

A minha maior motivação e o que traz mais sentido aos meus treinos é que posso aproveitar todo esse meu preparo físico e mental também fora das competições, ao pedalar, correr, fazer trekkings, enfim, explorar a vida outdoor nas minhas andanças pelo mundo afora. Um exemplo disso se deu logo após eu competir na Ultra Fiord 100 km, quando aproveitei para dar uma esticada até o Parque Nacional Torres del Paine, destino icônico de trekkers do mundo inteiro, para fazer o clássico Circuito W de 71 km em 3 dias. Ao chegar em cada refúgio, trocava a minha cargueira gigante e pesada com a qual percorria as trilhas por uma mochila de ataque para conhecer os arredores do parque correndo. Uma recompensa e tanto depois de tantos treinos.

9 – Qual foi sua maior dificuldade dentro de uma competição? (altitude, temperatura, cansaço físico ou mental)

Correr a Ultra Machupicchu Trail 100km 2017 sob o efeito da altitude sem ter tido tempo hábil para uma boa aclimatação. A dificuldade para respirar na subida do Salkantay, nos Andes peruanos, era enorme em virtude do ar rarefeito, tanto que ao atingirmos os 4800m, havia uma equipe medindo o nível de oxigênio no sangue dos atletas. Outra situação desafiadora se deu na Ultra Fiord quando, ao cair da noite, fui surpreendida por uma nevasca durante a ascensão do Cerro Prat. A descida foi particularmente difícil, em virtude do nível técnico do terreno, com suas muitas pedras soltas e ainda por conta do frio intenso e da falta de visibilidade das marcações cobertas pela neve. Acabei sofrendo várias quedas por tentar sair dali o mais rápido possível.

No entanto, encaro esses desafios típicos de percursos mais exigentes como oportunidades de aprendizado e crescimento pessoal. Ao buscar ficar confortável com o desconforto gerado por essas situações e exercitar a minha autoconfiança e resiliência, acabo me tornando uma pessoa mais calma e flexível frente aos inevitáveis percalços da vida.

10- Das grandes experiências que você já viveu em provas e ao longo da sua jornada, o que você deixaria de conselho para as mulheres que sonham em se tornar ultramaratonistas?

Olhando para trás, vejo como foi essencial me apaixonar pelo processo e procurar tornar essa trajetória mais leve e divertida. Fazer algo prazeroso ajuda a desviar a atenção das dificuldades, por isso estou sempre em busca de novas aventuras. Além disso, acho importante construir uma boa rede de suporte nessa empreitada, cercando-se de bons profissionais e ótimos parceiros de treinos. Por fim, mas não menos importante: ouse sonhar sem limites. Todas somos capazes de feitos incríveis e por isso, deixo uma frase inspiradora de T. S. Eliot de que gosto muito: “Somente quem se arrisca a ir longe fica sabendo até onde pode chegar.” Só posso dizer que vale cada gota de suor.

Ryan Sandes

Por Wanderson Nascimento

A data de 25 de março de 2018 ficou marcada na história dos esportes outdoor e, em 2020, completaram-se dois anos do grande feito obtido pelo ultramaratonista sul africano Ryan Sandes, atleta Red Bull, que, junto com seu amigo Ryno Griesel, atingiu a fronteira do Nepal, estraçalhando todos os recordes da Grande Trilha do Himalaia, cumprindo o desafio em três dias a menos que o antigo recordista Andrew Porter o percurso de nada mais, nada menos, que 1.504 km de montanha em um clima assustadoramente hostil e traiçoeiro.

Não satisfeito, no ano seguinte, em mais um de seus “devaneios aventureiros”, Sandes criou um Desafio dos 13 Picos, unindo as maiores montanhas ao redor de sua cidade e, mais uma vez, contou com a companhia de um amigo. Dessa vez, o “maluco” escolhido foi Kane Reilly, acostumado a dividir outras aventuras com Ryan.

Em abril passado, Sandes ganhou novamente destaque na mídia esportiva durante a quarentena, quando correu 100 milhas no quintal de casa, na Cidade do Cabo. Mas nosso espaço aqui será para destacar os dois grandes desafios superados pelo atleta em 2018 e 2019, que ele contou para nós em entrevista à Revista Trail Running.

Vamos começar falando sobre a Grande Trilha do Himalaia (GTH). O que levaria uma pessoa a querer passar mais de 25 dias percorrendo montanhas, enfrentando cansaço, privação de sono, queimaduras de frio, encarando ou desafiando tão de perto a morte? De acordo com Sandes, executar a GTH já era um sonho antigo e, além disso, as montanhas do Himalaia são icônicas e o povo nepalês, incrível. “Eu sabia que esse seria um enorme desafio mental e físico”, declara.

Great Himalaya
Ryan Sandes e Ryno Griesel

E, obviamente, nada melhor do que dividir um momento tão especial e entrar em uma verdadeira “enrascada” com um bom amigo, não é?  Sandes afirma que já teve Rynon com parceiro em outras aventuras, como a Drakensberg Grand Traverse, como parte do projeto da Red Bull intitulado ‘Travailen’, em 2014. “Desde então nos tornamos bons amigos. Ele é o grande parceiro de aventura e nos unimos muito bem. Ele é atlético, muito forte e tem muita experiência em grandes montanhas”, explica.

O recorde anterior da travessia era de 28d13h56m. Para quebrar a marca, um grande e trabalhoso planejamento estratégico foi essencial. O objetivo, segundo Sandes, era moverem-se o mais leve e rápido possível nas montanhas. Dia a dia, eles foram cumprindo cada etapa. “Nós carregávamos equipamentos limitados e planejamos otimizar nossa rota e ver onde poderíamos dormir e conseguir comida. Era importante para nós fazer um dia de cada vez e não focar no objetivo final, pois isso estava muito longe”.

Para aumentar ainda mais o nível de dificuldade, Sandes explica que, em 2018, o inverno no Nepal foi um pouco atrasado, o que atrasou o derretimento do gelo e da neve, que dificultaram muito a navegação, afetando também o ritmo.  “Ficou muito frio e Ryno ficou congelado muito cedo em nossa aventura, o que foi um grande desafio. Acho que se não fosse pela navegação de Ryno, ainda posso estar lá no Himalaia (risos)”. No final, a privação de sono nos últimos dias deixou a dupla muito cansada. Eles dormiram cerca de 4 ou 5 horas nos últimos dias e isso também impactou diretamente seu emocional. “Senti muita falta da minha família durante os últimos dias do projeto, o que foi realmente difícil para mim”. Ryno foi o responsável pela navegação, utilizando principalmente um GPS portátil e backup de mapas.

Quem corre uma ultramaratona de algumas horas de duração, sabe que passam vários filmes em nossa cabeça, que problemas são resolvidos e sofremos muitos altos e baixos, imagine então todos esses dias praticamente escalando montanhas geladas? Sandes explica que o povo nepalês foi incrivelmente gentil e acolhedor durante a travessia, salvando a vida da dupla algumas vezes, permitindo-lhes dormir em suas casas e dando-lhes comida. “A maior lição que aprendi foi a importância de ser gentil, pois você nunca conhece a circunstância de outra pessoa. Ver o quão difícil Ryno teve que se esforçar para continuar depois que ele havia congelado era insano e isso me fez perceber o quão forte a mente humana é. Uma lição valiosa que aprendi no projeto nunca foi tomar as pequenas coisas da vida como garantidas”, destaca.

Os últimos 300 quilômetros foram feitos com pequenos cochilos de 10 a 20 minutos no caminho, e com paradas pontuais para alimentação. Nesses 25 dias, Ryan e Griesel enfrentaram extremos: o cansaço, a dor, queimaduras de frio, uma lesão feia na perna de Ryno e diversos outros “perrengues”, mas concluíram o desafio com sucesso absoluto, podendo ser considerados como loucos pela maioria das pessoas, mas como super homens por aqueles que amam as montanhas e vivem o trail, como nós.

 UM ANO DEPOIS, MAIS UM DESAFIO PARA QUEM SE ALIMENTA DE ADRENALINA

Ryan Sandes parece mesmo ser movido a desafios. A adrenalina é o combustível para o sul africano. Pouco mais de um ano depois de esmagar o recorde da Grande Trilha do Himalaia, em um belo dia, ele começou a desenhar mentalmente um percurso que uniria os 13 maiores picos ao redor da Cidade do Cabo e resolveu cumprir esse percurso em apenas um dia. O que começou como um desafio pessoal, transformou-se em uma aventura acessível a “todos”. “Adoro aventuras e experiências épicas, por isso estou muito empolgado com o que o Desafio dos 13 Picos pode se tornar”, declara.

Mais uma vez, Sandes precisava de um comparsa para dividir momentos tão especiais e o escolhido, dessa vez, foi Kane Reilly, um grande amigo que também já tinha um histórico de parceira com Ryan em outras aventuras, porém, nunca havia corrido mais de 60 km em um único dia. Em seu desenho de percurso, Sandes estimava que seriam apenas 40 ou 50 km e estava ansioso para ter aquele dia divertido nas montanhas com seu amigo Reilly. No entanto, a realidade do percurso pegou ambos de surpresa. Os 40 ou 50 km, na verdade, a rota ultrapassava os 100 km. E agora? Perrengue à vista!

Desenho do Percurso 13 Picos

Eles saíram cedo e planejavam estar em casa antes das três da tarde, porque Kane tinha que ajudar sua namorada com uma mudança. Naquele clássico esquema de trilheiros de que “a gente volta cedo”, ou “vai ser tranquilo”, a aventura acabou se prolongando muito mais que o previsto. “Estávamos mal preparados e nossas baterias das lanternas acabaram subindo o último pico. Felizmente, percorremos uma ou duas cidades e recebemos algum apoio da família, o que ajudou. Foi uma aventura muito divertida para nós e foram apenas os 15 km finais que foram realmente difíceis”.

As oito horas e 50 km previstos acabaram se transformando em 19 horas, 102 km e 5800m de ganho de elevação. A missão foi abortada justamente nessa última subida, devido à falta de baterias das lanternas, mass Sandes afirma que eles não se frustraram. “Era importante colocar a segurança em primeiro lugar, pois as montanhas sempre estarão lá. Estávamos muito, muito cansados, mas felizes, pois tivemos 19 horas incríveis nas montanhas. Foi apenas no dia seguinte que pensei que isso seria incrível, criando um desafio pessoal para todos”.

Ryan explica que houve um momento em que diversão meio que se dissipou e ele começou a ter uns flashbacks dos Himalaias… daqueles dias realmente intermináveis em que pensava apenas em seguir adiante. “No final, vencemos 12 picos e meio e não conseguimos dar a volta final, mas foi um daqueles dias épicos que ficarão na minha memória para sempre”.

Sandes conclui explicando que o melhor desse percurso é que você pode correr e caminhar por vários dias, dois dias ou um dia, por exemplo. É uma aventura para todos e existem muitas maneiras diferentes de experimentar a montanha. “Acho que o principal desafio é conhecer a rota e a Table Mountain pode ser uma montanha pequena, mas o tempo ainda pode ficar muito frio, molhado e ventoso lá em cima”, conclui.

Como dissemos anteriormente, Ryan Sandes não se aquietou nem durante o período de quarentena e resolveu percorrer 100 milhas, completando 1500 voltas ao redor de sua casa, em pouco mais de 26 horas, com um desnível total de 4500m. Realmente Ryan Sandes não sabe brincar!

  • Great Himalaya
  • Great Himalaya 13 picos
Cumes da mantiqueira

Itamonte (Minas Gerais, Brasil) e seu entorno é lugar perfeito para os amantes do ecoturismo, das trilhas e montanhas.

Por: Fabrício Cavalcante Frauzino e Thomaz Tassinari

Itamonte (Minas Gerais, Brasil) e seu entorno é lugar perfeito para os amantes do ecoturismo, das trilhas e montanhas. 

O município está próximo de seis dos onze maiores cumes do Brasil, destacando o lendário Pico das Agulhas Negras, com 2.791,5 metros de altitude, o quinto cume do Brasil justo na divisa do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, encravado na Parte Alta do Parque Nacional de Itatiaia que tem 60% da sua área localizada no município de Itamonte. 

Dentro desse mesmo Parque estão outros míticos cumes como o Morro do Couto, com 2.680 metros, no Rio de Janeiro, o oitavo do Brasil; a Pedra do Sino de Itatiaia, com 2.670 metros, em Minas Gerais, nono cume do país; e a Pedra do Altar, com 2.665 metros, localizado no Rio de Janeiro, sendo o décimo primeiro cume brasileiro. 

Uma das trilhas mais desejadas pelos amantes da montanha é a “Travessia da Serra Fina”, sendo que parte dela transcorre por dentro da RPPN Alto-Montana em Itamonte. É uma travessia técnica com um dos maiores desníveis do Brasil, que impõe ao montanhista várias dificuldades, desde a obtenção de água até a navegação. 

O PROJETO 6 CUMES DA MANTIQUEIRA realizado no dia 01 de abril de 2018, também intitulado SIX, teve como objetivo divulgar o Instituto Alto-Montana da Serra Fina, como uma referência no ecoturismo e turismo de aventura no Circuito Terras Altas da Mantiqueira. O Projeto foi realizado mediante expedição idealizada pelos amigos Thomaz Tassinari, Engenheiro Agrícola de Lavras (MG) e por Fabrício Cavalcante Frauzino, Médico do Esporte de Palmas (TO) partindo de um sonho de infância de Fabrício, que era conhecer o Pico das Agulhas Negras. 

A expedição também foi composta por Alberto Guimarães de Resende (RJ), Guia de Montanha e Condutor cadastrado no Parque Nacional de Itatiaia; Germano Viegas, Documentarista de Resende (RJ); Charles Llosa, Documentarista de Passa-Quatro (MG); Cláudio Eduardo Gargiulo, de Belo Horizonte (MG), proprietário da G7 Comunicação Multimídia e idealizador do Projeto Ecoturistando; Paulo Pêgas, Gestor da RPPN Alto-Montana / Instituto Alto-Montana da Serra Fina; e por Tani Oreggia, de São Paulo (SP), Gestor da empresa de materiais esportivos kailash®️ e eventos KTR®️. 

Para esta expedição, foi gentilmente criado pela equipe da G7 Comunicação Multimídia o nome SIX, que batizou nosso projeto, além de logomarca do mesmo. O nome foi pensado devido à ideia de realizarmos seis dos onze maiores picos do Brasil em menos de 48 horas, tendo como acampamento-base a própria RPPN do Instituto Alto-Montana da Serra Fina.

Faça o download gratuitamente AQUI.

Por Valmir Lana
Foto por: Emanuel Galafassi

No ano de 2018 foi realizado o primeiro Circuito brasileiro Skyrunning e os melhores atletas das modalidades SkyRace, SkyMarathon e UltraSkyMarathon tiveram a oportunidade de vestir a camisa e representar a seleção brasileira de Skyrunning!

O evento foi sediado em Tijucas do Sul, no Paraná e o evento escolhido foi a famosa e temida Ultramaratona dos Perdidos.

Os antes 100km se transformaram em 80km e os 45km clássicos foram disputados por 5 países, Brasil, Peru, Chile, Equador e Bolívia!

O campeonato continental tem a característica de ser uma prova aberta, onde os atletas das seleções competem de igual pra igual com todos os atletas em uma só largada e vença o melhor, em outras palavras, o campeão sul-americano de Skyrunning pode ser um atleta que não faz parte de nenhuma seleção!

O Brasil, donos da casa, estava com a maior delegação e com grandes nomes do cenário nacional, o clima era de grande festa desde os primeiros momentos do evento e com grandes disputas, notava-se o grande empenho de todos os atletas, o esforço, comprometimento e alegria em estar ali!

Fizemos nosso dever de casa e vencemos no masculino e no feminino nas duas modalidades do campeonato com Cleverson Del Secchi (Fantasma) vencendo os 80km seguido de Wellington Noronha e do atleta do Peru Luís Andrés Oliveira, no feminino Maria Lucia Zanetti venceu seguida de Elizabete Prado e Cal Nogueira.

Rogério Silvestrin venceu a SkyMarathon e com quebra do antigo recorde da prova seguido por Chico Santos e José Virgínio de Morais, Letícia Saltori teve uma grande batalha com a Peruana Marylin Enriquez mas acabou vencendo com a atleta do Peru em segundo e Jasiele Tagliari em terceiro lugar.

Nas outras duas distâncias 25km e 13km não foram diferente, disputas e muita garra de todos atletas, que a pesar de não fazerem parte do campeonato sul-americano de Skyrunning, houveram atletas da seleção que também haviam se classificado na modalidade SkyRace.

Nos 25km o atleta Rodrigo Neves fez uma grande prova e venceu de ponta-a-ponta seguido por Eloi de Souza e Wilton do Nascimento, já no feminino Lucia Magalhães fez uma prova consistente e garantiu a primeira colocação numa disputa com grandes nomes do cenário, Ana Paula Silveira ficou com a segunda colocação, seguida de Elisa Lamego.

O jovem Caio Lima, atleta da seleção brasileira juvenil de Skyrunning venceu os 13km seguido por Genir dos Santos e Luís Eduardo de Oliveira, já no feminino a atleta Ana Karlla de Oliveira foi a campeã seguida por Aline Trevizan e Márcia dos Santos.

Um grande sucesso e com imenso prazer é orgulho de todos os atletas que ali estiveram competindo e dando o seu melhor.

Parabéns aos organizadores, staffs, amigos, voluntários que fizeram um grande trabalho.

Gratidão à Mantle, empresa que se dispôs a apoiar a seleção com o uniforme, o qual ficou lindo e com qualidade máxima.

Em 2020 teremos o mundial de Skyrunning e o circuito Nacional Series está a todo vapor, a próxima prova será no próximo mês com a La Misión Brasil em Passa Quatro.

Nos vemos lá!

Valmir Lana

Este ano eu comecei com uma grande certeza, teríamos o melhor ano trail no Brasil, isto era muito nítido para mim, afinal, teríamos um mundial de skyrunning na Espanha e estaríamos lá com a seleção adulta completa pela primeira vez, seria o terceiro ano seguido que levaríamos nossos jovens ao mundial na Itália.

Além disso tudo, os eventos no Brasil estão numa crescente de qualidade em todos os sentidos, atletas com mais consciência na escolha de seus desafios, assessorias se especializando em Trail Run, circuitos estavam surgindo regionalmente e estamos conseguindo atrair olhares gringos para dentro do Brasil.

Mas no mês de Março tivemos a inesperada surpresa de sermos pegos por uma pandemia que nos forçou a ficarmos em casa, levou ao cancelamento dos eventos de qualquer natureza esportiva ou não esportiva, ficamos proibidos de treinar ao ar livre, tudo isso pensando no bem comum e não somente o nosso.

Minha maior tristeza neste cenário é ver que a pandemia virou motivo político de desunião, ao passo que era o momento ideal para união.

A incerteza, ainda hoje quase dois meses após, é o cenário em que todos nos encontramos, muito se fala dos eventos do segundo semestre mas ainda não há como sabermos como a situação estará até lá, tanto no Brasil como no mundo.

Eu como um cara positivo que sou, busco me informar sob vários prismas para me posicionar e tenho real esperança que no segundo semestre voltaremos com nossa vida normal, mas vejam, eu falo em “esperança”, não dá para afirmar nada.

O momento é de se reinventar, tentar encontrar inspiração, buscar se diversificar no convívio familiar, nos treinos, nos focos… enfim, fazer com que esta fase seja positiva em algum sentido para você.

Tenho me planejado para a volta dos eventos em agosto e meu pensamento está focado nisto, creio que uma visão positiva, uma mente positiva pode ajudar muito a passar por estes momentos difíceis.

Vamos seguir, olhando pra frente, pois mesmo com toda incerteza, devemos nos manter firmes. Mantenham o distanciamento social, se puder ficar em casa, fique! Com toda certeza estaremos juntos em breve e muito mais fortes e unidos.

Cição Pau no Cat

Comecei a correr em 2003, como um hobby – até o passatempo mudar a minha vida e fazer parte da minha rotina. De lá pra cá, vivi o mundo de corridas de rua intensamente, completando algumas maratonas e inúmeras outras distâncias, na montanha foram mais de 20 ultras. Sem dúvida,  que cruzar a linha de chegada é maravilhoso, mas o processo para chegar até lá é o grande barato, montanhas, paisagens, lugares que eu nunca imaginaria correr. O ano de 2009 marcou a minha estreia em provas de montanha. O El Cruce de Los Andes prova 100 quilômetros, que tem como propósito correr pela Patagonia entre Chile e Argentina foi onde tudo começou.  Pra mim foi um evento sob medida, pois naquela época da minha vida, estava mesmo em busca de uma renovação pessoal e espiritual e foi nas montanhas que encontrei. Passei por maus bocados naquela prova, pois ali estava fazendo a minha migração das provas de rua para as provas de montanha. O frio, o desconforto, a minha falta de experiencia, fizeram daquela prova, um teste único para mim se de fato eu seguiria fazendo provas daquele tipo ou simplesmente eu voltaria pra as provas rua.

De lá pra cá, se passaram 10 anos e com inúmeras provas feitas ao redor do globo, posso me considerar um “old is scool” do nosso trail. Uma vez, lendo uma revista de esporte, me deparei com uma matéria intitulada assim: “100 coisas que você precisa realizar no esporte antes de morrer” e uma delas dizia o seguinte: não importa qual posição, mas lute para subir num pódio uma vez na vida, confesso que tive a honra de conseguir alguns e até ter me sagrado campeão numa das provas mais lindas que fiz na vida que pra mim, foi uma experiencia sublime. Os 100km da Mongólia Sunrise to Sunset (MS2S), aconteceu a 15.744km do Brasil, disputada ao lado do Lago Hovsgol, em meio a natureza quase virgem, confesso que nunca passou pela minha cabeça chegar em primeiro, ainda mais correndo com caras de mais de 40 países, mas quando nos últimos quilômetros eu percebi que não poderia ser mais alcançado, me debulhei em lagrimas e a música tema da vitória, vinha a todo momento na minha cabeça, me senti o Ayrton Senna numa manhã de domingo sabe?.

A minha conexão com as montanhas será eterna, o ano era 2012 e pouco antes de ir pros 80km do Desafio das Serras, perdi o meu pai e levei as suas cinzas junto comigo para essa prova. Passado o primeiro dia de prova e já durante a noite da primeira etapa, fui ao topo da montanha fiz uma prece e joguei as cinzas do meu velho no alto da montanha da Serra da Bocaina. A partir daquele momento, todas as vezes que estou correndo eu me pego conversando com o meu pai, por vezes sorrio e algumas vezes caio no choro.

Me considero um cara estudioso e para o tipo de provas que mais prefiro que são as de longa distância o estudo do regulamento, traço o planejamento correto e exerço a humildade de conversar com os mais experientes, são essências para tomar boas decisões e procurar errar o menos possível durante qualquer prova.

Carrego comigo alguns mantras que me ajudam a ficar vivo e sempre preciso os uso e os meus preferidos são: “vamos lá que hoje é dia de pãozinho quente”, “vamos lá, um passo na frente do outro, que a linha de chegada está mais próxima”, para a dor eu tenho outra que é ótima: “A dor que estou sentindo, não é uma dor é apenas um desconforto momentâneo e já vai passar”. Veja não tem nada de especial, mas produz um efeito analgésico em mim que é incrível e a frase clássica de minha mãe: “engole o choro e vai em frente”, e por último tenho mais duas que adoro “a trilha coloca cada um no seu devido lugar” e “é preciso suar grosso se você quer muito algo, suar grosso”.

Se posso deixar uma mensagem para os amigos leitores da trailrunning, jamais terceirize os seus sonhos, ele é seu, portanto, tem o seu nome, o seu cpf, lute, sue grosso que você vai conseguir!

 

Um beijo Cicao

Continental Skyrunning

Em 2019 tivemos um ano realmente muito bom, em muitos aspectos. Claro que nem tudo são flores, mas no fim das contas, foi um ano muito positivo.

Pela primeira vez tivemos um campeonato Continental de Skyrunning no Brasil e foi um baita sucesso! O Continental foi sediado pela Ultramaratona dos Perdidos e o evento foi marcante em todos os quesitos, como é a marca dos eventos produzidos pela TRC – Brasil.

Tivemos lindas batalhas nas trilhas em todas as distâncias, um grande aproveitamento dos atletas brasileiros. Estivemos em todos os pódios no lugar mais alto e com isso saímos um pouco do anonimato no mundo Skyrunning. Agora temos atletas campeões continentais para nos orgulhar.

Foram realizadas outras provas que marcaram o cenário Trail, como a Indomit Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí e a La Misión Brasil, em Passa Quatro.

A Indomit reuniu um seleto grupo de atletas candidatos a vencer a prova; estar entre os 10 primeiros seria um belíssimo resultado e isso mexeu com o cenário, pois todos estavam de olhos ligados em tudo que acontecia por lá. Foi realmente marcante e eu fui privilegiado de acompanhar tudo de muito perto.

Em terras mineiras, a La Mision Brasil reuniu mais de 1.150 atletas para correr uma de suas distâncias na cidade de Passa Quatro. Um número incrível para um evento que, dois anos atrás, tinha somente 200 inscritos. Graças a um trabalho sólido e extremamente bem feito por Paulo Lamin, o evento se consolidou no cenário como um dos melhores. Mesmo tendo problemas no dia, souberam, como poucos, contornar e resolver as questões satisfatoriamente.

Outro ponto de destaque, no meu ver, foram os jovens que começam a entrar forte no cenário Trail e com uma força que dá gosto de ver. Tivemos, pelo segundo ano consecutivo, uma seleção juvenil de skyrunning disputando o mundial na Itália e com ótimos resultados, sem falar dos resultados expressivos que obtiveram em eventos aqui no Brasil.

Existe muito caminho a percorrer, mas creio que, a cada ano, estamos amadurecendo, os organizadores estão mais experientes; uns eventos acabam, outros nascem; uns atletas somem e outros aparecem… Assim é o mercado, os melhores estarão sempre andando na frente, seja evento ou atleta!

Em 2020, meu coração está repleto de boas sensações! Creio muito que será muito melhor que 2019 em todos os sentidos e, se você é um apaixonado por TrailRunning, se ligue e saiba montar seu calendário, pois teremos um ano excepcional!

Venha com a gente, no acompanhe nas redes sociais e em nosso site; teremos muito o que falar!

Carlos Sá

Correr pela montanha nos transforma, ajuda-nos a libertar o stress diário, ganhar auto estima, descobrir um mundo maravilhoso e encontrar nosso equilíbrio emocional. Foi com esse propósito que, há cerca de 20 anos, saltei do sofá e comecei a me aventurar nas montanhas mágicas que escondiam segredos sem fim.

Essa foi a maior vitória da minha carreira, dar o primeiro passo. Foi muito doloso nos primeiros meses ou até anos, mas a satisfação de cada conquista feita superava todo o sacrifício deixado nessas subidas loucas, com pedras enormes, colocadas em nosso caminho, para o desafio ser somente para os mais audazes.

O gozo e adrenalina eram tal, que rapidamente saltamos da média montanha para a alta montanha; escaladas nos Pireneus, Alpes e Andes eram colocadas nos novos calendários de cada época. Chegamos a um ponto que precisamos destes desafios para viver, sem eles fica um vazio enorme em nosso interior.

Mais tarde, com o aparecimento do Trail Running e as marcas a produzirem material cada vez mais técnico e eficiente, começa a ser possível desafiar essas mesmas montanhas de uma forma mais veloz, onde a nossa superação é ainda maior. Nessa altura, começo a introduzir desafios pessoais, não só fazer provas de trail e ultra trail.

Nos desafios pessoais, tais como bater o recorde mundial no Aconcágua, estou eu e a montanha em pleno desafio, não tenho que me preocupar com outros aventureiros ou corredores, somente respeitar as regras da mãe natureza e ouvir nosso corpo, para ter a inteligência de saber dar a volta quando ele nos envia sinais de alerta.

Essa forma de superação de desafios e saber estar em meio natural ajuda-nos nos desafios diários da nossa vida. Por vezes, o saber esperar nosso momento e respeitar nossos limites são maiores que qualquer vitória.

Já fiz muitos desafios extremos, como cruzar em autonomia a Gronelândia, subir e descer o Aconcágua com os quase 7.000 m na Argentina em cerca de 14 horas; vencer os 217 km da Badwater, no Vale da Morte; correr os 340 km com 30.000 metros de desnível positivo non stop do Tor des Geants em 80 horas; correr por seis vezes os 250 km da Marathon des Sables, no deserto do Sahara; ou até o Ultra Trail du Mont Blanc, do qual participei seis vezes, ficando várias vezes no top 8. Estive algumas vezes no meu limite físico e emocional, mas tive sempre a capacidade e o controle de não o ultrapassar; desisti muitas vezes, quando achava que estava a ultrapassar essa fronteira. Nenhum desafio é maior ou mais importante que a nossa saúde e bem estar.

Portanto, quando colocarem desafios em vossas vidas, ou carreiras desportivas, tirem o máximo de prazer e satisfação de toda essa experiência fantástica, sendo o trail e ultra trail desportos de grande exigência e superação, o mesmo não deve ser algo que nos traga mais sofrimento do que prazer.

Corram atrás dos vossos sonhos! Sejam felizes!