Carlos Sá

Correr pela montanha nos transforma, ajuda-nos a libertar o stress diário, ganhar auto estima, descobrir um mundo maravilhoso e encontrar nosso equilíbrio emocional. Foi com esse propósito que, há cerca de 20 anos, saltei do sofá e comecei a me aventurar nas montanhas mágicas que escondiam segredos sem fim.

Essa foi a maior vitória da minha carreira, dar o primeiro passo. Foi muito doloso nos primeiros meses ou até anos, mas a satisfação de cada conquista feita superava todo o sacrifício deixado nessas subidas loucas, com pedras enormes, colocadas em nosso caminho, para o desafio ser somente para os mais audazes.

O gozo e adrenalina eram tal, que rapidamente saltamos da média montanha para a alta montanha; escaladas nos Pireneus, Alpes e Andes eram colocadas nos novos calendários de cada época. Chegamos a um ponto que precisamos destes desafios para viver, sem eles fica um vazio enorme em nosso interior.

Mais tarde, com o aparecimento do Trail Running e as marcas a produzirem material cada vez mais técnico e eficiente, começa a ser possível desafiar essas mesmas montanhas de uma forma mais veloz, onde a nossa superação é ainda maior. Nessa altura, começo a introduzir desafios pessoais, não só fazer provas de trail e ultra trail.

Nos desafios pessoais, tais como bater o recorde mundial no Aconcágua, estou eu e a montanha em pleno desafio, não tenho que me preocupar com outros aventureiros ou corredores, somente respeitar as regras da mãe natureza e ouvir nosso corpo, para ter a inteligência de saber dar a volta quando ele nos envia sinais de alerta.

Essa forma de superação de desafios e saber estar em meio natural ajuda-nos nos desafios diários da nossa vida. Por vezes, o saber esperar nosso momento e respeitar nossos limites são maiores que qualquer vitória.

Já fiz muitos desafios extremos, como cruzar em autonomia a Gronelândia, subir e descer o Aconcágua com os quase 7.000 m na Argentina em cerca de 14 horas; vencer os 217 km da Badwater, no Vale da Morte; correr os 340 km com 30.000 metros de desnível positivo non stop do Tor des Geants em 80 horas; correr por seis vezes os 250 km da Marathon des Sables, no deserto do Sahara; ou até o Ultra Trail du Mont Blanc, do qual participei seis vezes, ficando várias vezes no top 8. Estive algumas vezes no meu limite físico e emocional, mas tive sempre a capacidade e o controle de não o ultrapassar; desisti muitas vezes, quando achava que estava a ultrapassar essa fronteira. Nenhum desafio é maior ou mais importante que a nossa saúde e bem estar.

Portanto, quando colocarem desafios em vossas vidas, ou carreiras desportivas, tirem o máximo de prazer e satisfação de toda essa experiência fantástica, sendo o trail e ultra trail desportos de grande exigência e superação, o mesmo não deve ser algo que nos traga mais sofrimento do que prazer.

Corram atrás dos vossos sonhos! Sejam felizes!